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sábado, 9 de janeiro de 2010

Lilith - Anais Nin

Lilith era sexualmente frígida e seu marido tinha quase certeza disso, não obstante todo o fingimento dela. Foi esse fato que causou o seguinte incidente: Ela nunca se servia de açúcar porque não queria engordar e usava um adoçante. Eram pequenas pílulas brancas que carregava o tempo todo na bolsa. Um dia Lilith ficou sem seu adoçante e pediu ao marido que o comprasse quando viesse para casa. Assim, ele lhe trouxe um frasquinho igual ao que ela pedira, e Lilith pôs duas pílulas em seu café, depois do jantar. Os dois sentaram-se juntos. Billy a fitava com a expressão de jovial tolerância que usava com freqüência, quando de seus ataques de nervos, suas crises de egoísmo, de auto-acusação, de pânico. A todo seu comportamento dramático ele reagia com inabalável bom humor e paciência. E Lilith ficava brigando sozinha, furiosa, passando por vastas crises emocionais em que ele não tomava parte.
Possivelmente tudo isso era um símbolo da tensão que não ocorria entre eles no plano sexual. Ele recusava todas as suas hostilidades, seus desafios violentos e primitivos, não se permitia entrar nessa arena emocional com Lilith e reagir à sua necessidade de ciúme, temores e batalhas. Talvez se Billy tivesse aceito os desafios de Lilith e participado dos jogos de que ela gostava, Lilith poderia ter sentido sua presença como algo mais que um mero impacto físico. Mas o marido de Lilith não conhecia os prelúdios do desejo sexual, ou os estimulantes que certas naturezas selvagens exigem, e assim, em vez de reagir corretamente logo que via seus cabelos ficarem elétricos, seu rosto mais cheio de vida, seus olhos cintilantes, seu corpo irrequieto como o de um cavalo de corrida, retirava-se para sua parede de compreensão objetiva, de brincadeiras gentis e de plena aceitação de sua natureza, como alguém que observa um animal em um jardim zoológico e sorri de suas excentricidades, mas não se deixa envolver. Era isso que deixava Lilith em um estado de total isolamento — como um animal selvagem que habitasse uma região deserta. Quando Lilith brigava e sua temperatura subia, o marido não era visto em parte alguma. Era como um céu sereno olhando para ela de cima, esperando que a tempestade passasse. Se Billy, como outro animal selvagem, aparecesse do outro lado do deserto, fitando-a com a mesma tensão elétrica nos cabelos, na pele e nos olhos, se aparecesse com o mesmo corpo selvagem, pisando forte e querendo achar qualquer pretexto para lançar-se sobre ela, abraçá-la com fúria, sentir-lhe o calor e a força, podia ser que acabassem rolando na cama, que os sorrisos sarcásticos se transformassem em mordidas de paixão e que a luta passasse a ser um combate de amor. Os puxões de cabelo uniriam suas bocas, seus dentes, suas línguas. E de toda essa fúria podia ser que seus aparelhos genitais se esfregassem um contra o outro, soltando centelhas, e tivessem os dois corpos que se interpenetrar para pôr fim à formidável tensão. Naquela noite Billy mais uma vez se sentou com a expressão costumeira nos olhos, enquanto ela se colocou perto do abajur, pintando um objeto qualquer com tanta fúria que dava a impressão de que iria devorá-lo quando terminasse. O silêncio foi quebrado por ele, quando disse:
— Sabe, não era adoçante aquela pílula que eu trouxe e que você pôs no café. Era cantárida, um pó excitante.
Lilith ficou atônita.
— E você teve coragem de me dar isso?
— Sim, eu queria ver você ficar excitada. Pensei que podia ser bem agradável para nós dois.
— Oh, Billy — disse ela —, o que você fez comigo! E eu prometi a Mabel que iríamos ao cinema. Não posso desapontála. Há uma semana que Mabel está trancada em casa. E se essa droga começar a fazer efeito quando eu estiver no cinema?
— Bem, se você prometeu, tem de ir. Mas eu estarei à sua espera.
Assim, meio febril e muito tensa, Lilith foi ao encontro de Mabel. Não se atreveu a contar o que o marido havia feito com ela. Não saíam de sua cabeça todas as histórias que ouvira a respeito da
cantárida. Esse afrodisíaco fora muito usado pelos homens na França do século XVIII. Lembrava-se da história de um certo aristocrata que, aos quarenta anos, já um pouco enfraquecido por ter assiduamente feito amor com todas as mulheres atraentes de seu tempo, apaixonou-se violentamente por uma dançarina de apenas vinte anos e passou três dias e tres noites tendo relações sexuais com ela com a ajuda da cantárida.
Lilith tentou imaginar como poderia ser uma experiência dessas, receando que adroga fizesse efeito a qualquer instante, obrigando-a talvez a ir correndo para casa e confessar seu desejo ao marido. Lilith não conseguiu concentrar-se no que se passava na tela do cinema. Sua
cabeça era um caos. Sentou-se muito tensa, tentando sentir os efeitos da droga. E teve um sobressalto quando percebeu que se sentara com as pernas muito abertas e a saia bem levantada, acima dos joelhos. Recompôs-se, achando que aquilo já deveria ser indício de uma febre sexual que a estava acometendo e que se agravava a cada instante. Tentou lembrar se algum dia já se sentara daquela maneira no cinema. No seu modo de entender, aquela posição
era a mais obscena que jamais imaginara. Sabia que quem estivesse sentado na fila da frente, colocada muito abaixo da sua, seria capaz de, com uma simples olhada para trás, regalar-se com o espetáculo das calcinhas e das ligas novas que comprara naquele mesmo dia. Tudo parecia conspirar em benefício de uma noite de orgia. Deveria ter sido dominada por uma premonição quando resolvera comprar aquelas calcinhas rendadas e um par de ligas cor de coral que ia tão bem com suas pernas de dançarina. Foi com raiva que fechou as pernas. Se fosse envolvida por uma selvagem torrente de desejo, não saberia o que fazer.
Deveria se levantar de repente, dizer que estava com dor de cabeça e ir embora?
Talvez pudesse se virar para Mabel — Mabel sempre a adorara. Teria coragem de se voltar para Mabel e acaricia-la? Já ouvira falar de mulheres que se acariciavam. Uma conhecida sua já se sentara daquele modo na escuridão do cinema e, muito lentamente, a mão da amiga que estava a seu lado abrira sua saia, escorregara até seu sexo e a acariciara até que ela gozasse.
Não saberia dizer com que freqüência essa sua conhecida vivera aquela deliciosa situação de ter que ficar quieta, controlando a parte superior do corpo, enquanto estava sendo acariciada no escuro, secreta, lenta e misteriosamente. Nunca tinha acariciado uma outra mulher. Diversas vezes pensara que deveria ser algo maravilhoso afagar uma mulher, acompanhar a curva de suas nádegas, sentir a suavidade do seu ventre e da pele entre as pernas. Já tentara se acariciar na cama, à noite, só para ver como seria tocar outra mulher.
Reiteradamente fizera isso com seus próprios seios, imaginando que fossem de outra mulher.
Fechando os olhos imaginou o corpo de Mabel em traje de banho, Os seios redondos
eram tão grandes que pareciam querer pular para fora do maiô a qualquer instante. Ela estava sempre sorrindo, e sua boca de lábios grossos prometia sermuito suave. Como deveria ser maravilhoso! Mas até então Lilith não sentia nenhum calor entre as pernas que pudesse fazêla
perder o controle e esticar a mão na direção de Mabel. As pílulas ainda não tinham produzido efeito. Estava frígida, constrangida, entre as pernas; havia mesmo uma evidente tensão lá. Não podia relaxar. Se tocasse em Mabel, não poderia prosseguir depois com um gesto mais ousado. E, no entanto, a saia de sua amiga abria-se lateralmente. Será que Mabel gostaria de ser acariciada? Lilith estava ficando inquieta. Sempre que se descuidava, suas pernas se abriam de novo, tomando aquela posição que lhe parecia tão obscena, tão convidativa e que a fazia recordar certos
passos de dança das bailarinas nativas da ilha de Bali.
O filme terminou. Em silêncio, Lilith dirigiu seu carro pelas estradas escuras. De repente os faróis iluminaram um carro que se achava estacionado no acostamento. Dentro dele havia um casal que não estava se acariciando do modo usual. A mulher estava sentada no colo do homem, de costas para ele; o homem se erguia todo de encontro a ela, o corpo na pose característica de quem estava gozando. Seu estado era tal que ele não foi capaz de parar quando os faróis do carro de Lilith o iluminaram. Pelo contrário, esticou-se mais ainda, para sentir melhor a mulher que tinha nos joelhos, enquanto ela dava a impressão de estar meio desmaiada de prazer.
Lilith permaneceu em silêncio, tomada de espanto, e Mabel comentou:
— Sem dúvida nós os pegamos no melhor momento.
E riu. Então Mabel conhecia o clímax que Lilith jamais experimentara e que tanto
ansiava por conhecer. Gostaria de perguntar como era, mas se conteve. Logo saberia. Ver-se-ia obrigada a liberar todos aqueles desejos experimentados em geral apenas nas fantasias, em longos devaneios que enchiam suas horas quando ficava sozinha em casa. Ficava pintando e
pensava: "Agora entra aqui um homem por quem estou muito apaixonada. Ele aparece no quarto e vai dizendo: 'Deixe-me despir você'. Meu marido jamais tira minha roupa; ele se despe sozinho; mete-se na cama e, se me quer, apaga a luz. Mas esse homem virá e me despirá lentamente, peça por peça. Isso me dará bastante tempo para senti-lo, para ter as mãos dele sobre mim. Antes de tudo, ele abrirá meu cinto, tocará em minha cintura com ambas as mãos e dirá: 'Que linda cintura você tem; como é estreita, que belas curvas'. Então desabotoará minha blusa muito
devagar; eu sentirei suas mãos em cada botão, e depois tocando meus seios pouco a pouco, até que eles saiam da blusa. Ele os amara e sugará os bicos como se fosse uma criança, machucandome um pouco com seus dentes. E eu sentirei tudo isso se espalhando pelo meu corpo, liberando todos os meus nervos e me dissolvendo em um mar de desejo. Ficará impaciente com
a saia. Estará desesperado de paixão. Não apagará a luz. Ficará me olhando, me admirando, me adorando, aquecendo meu corpo com suas mãos, esperando até que eu esteja totalmente excitada, até que cada poro de minha pele tenha despertadopara o amor. Será que já estaria sendo perturbada pela cantárida? Não, sentia-se lânguida, perseguida por todas aquelas fantasias que se repetiam interminavelmente — mas era só. E, contudo, gostaria de conhecer o
êxtase que observara no casal surpreendido pelos faróis do seu carro.
Quando chegou em casa encontrou o marido lendo. Ele ergueu os olhos para ela e sorriu com malícia.
Lilith não quis confessar que não tinha sentido os efeitos do afrodisíaco. Estava imensamente
desapontada consigo mesma. Que mulher glacial ela devia ser, a quem nada perturbava, nem mesmo algo que fizera um nobre do século XVIII passar três dias e três noites fazendo amor sem parar. Ela era um verdadeiro monstro. E seu próprio marido já devia saber disso. Iria rir dela.
E acabaria por procurar uma mulher mais sensível. Assim, ela começou a se despir na frente dele, andando de um lado para o outro seminua, escovando os cabelos ao espelho. Em geral não fazia nada disso. Não queria que ele a desejasse. Não sentia nenhum prazer com o ato sexual. Era algo que tinha de ser feito o mais rápido possível apenas por causa dele. Para ela era um sacrifício. A excitação e o prazer que não compartilhava lhe eram repulsivos. Sentia-se como uma prostituta paga para aquilo. Era uma prostituta sem sentimentos, que em troca de seu amor e de sua devoção lhe dava um corpo totalmente frígido. Sentia vergonha de ser assim.
Mas quando finalmente se deitou, ele lhe disse:
— Não creio que a cantárida tenha produzido efeito suficiente em você, e estou com sono. Acorde-me se. . Lilith tentou dormir mas não conseguiu, aguardando que seu corpo se enchesse de desejo. Depois de uma hora levantouse e foi até o banheiro. Pegou o vidrinho que Billy lhe comprara e tomou dez pílulas de uma só vez, pensando: "Isto vai resolver o problema".
Deitou-se de novo, esperando. Durante a noite seu marido foi procurá-la. Mas ela estava tão tensa e seca entre as pernas que ele teve de umedecer o pênis com saliva.
Na manhã seguinte Lilith acordou chorando. Billy interrogou-a e ela lhe disse a verdade. Ele soltou uma risada.
— Mas, Lilith, tudo não passou de uma brincadeira. O que você tomou não era cantárida.
Mas daquele momento em diante Lilith passou a ser perseguida pela idéia de que deveriam existir modos de se excitar artificialmente. Tentou todas as fórmulas de que já ouvira falar. Bebeu enormes copos de chocolate com grandes quantidades de baunilha. Comeu montanhas de cebolas. O álcool não a afetava como a outras pessoas, porque já estava em guarda quando começava a beber. Na verdade, não conseguia deixar de pensar em si própria e em seu problema. Já tinha ouvido falar de umas bolinhas que eram usadas como afrodisíaco nas Indias Orientais. Mas como poderia obtêlas? Onde poderia se informar a esse respeito? As mulheres nativas daquele país as inseriam dentro da vagina. Eram bolinhas de borracha muito macia, revestidas de um material bem parecido com pele. Quando eram introduzidas na vagina, essas bolinhas se acomodavam e passavam a se agitar toda vez que a mulher se movia, causando um efeito muito mais excitante do que um dedo ou um pênis. Lilith gostaria de conseguir essas bolinhas, para andar com elas dentro de si dia e noite.

2 comentários:

Luise Aznavour ♥ disse...

Nossa, que perfeito, totalmente lindo o que você criou!

Parabéns, sempre com textos ótimos.

Grande beijo!

Nina Capucci disse...

Oi Luise.
Obrigada pela visita, volte sempre.
Abraços,
Nina