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domingo, 13 de dezembro de 2009

A história de O- (Trecho) - Pauline Réage


(...) Com os braços estendidos e os olhos fechados, ela apoiou a cabeça e o busto no sofá. Então uma imagem que tinha visto há alguns anos a atravessou. Era uma curiosa estampa que representava uma mulher de joelhos como ela, diante de uma poltrona, numa sala ladrilhada. Uma criança e um cachorro brincavam a um canto, as saias da mulher estavam levantadas, e um homem de pé, bem perto, levantava sobre ela um punhado de varas. Todos usavam roupas do fim do século XVI e a estampa tinha o título que lhe parecera revoltante: A correção familiar. René com uma das mãos segurou seus pulsos enquanto com a outra levantava seu vestido, tão alto que sentiu a gaze plissada roçar seu rosto. Acariciava suas nádegas e fazia Sir Stephen observar as covinhas que as afundavam, e a suavidade do sulco entre as coxas. Depois, pressionando sua cintura com a mesma mão para salientar as nádegas, ordenou-lhe que abrisse mais os joelhos. Ela obedeceu sem dizer nada. As honras que René fazia de seu corpo, as respostas de Sir Stephen, a brutalidade dos termos que os dois homens empregavam mergulharam-na num estado de vergonha tão violento e tão inesperado que o desejo que tinha de pertencer a Sir Stephen se desvaneceu e ela pôs-se a esperar o chicote como uma libertação, a dor e os gritos como uma justificativa. Mas as mãos de Sir Stephen abriram o caminho de seu ventre, forçaram o sulco entre suas nádegas, deixaram-na e voltaram, acariciando-a até fazerem-na gemer, humilhada por estar gemendo, derrotada. "Deixo-a para Sir Stephen", disse então René. "Fique como está, ele a dispensará quando quiser". Quantas vezes, em Roissy, tinha ficado assim de joelhos, oferecida a qualquer um? Mas lá, sempre amarrada pelos braceletes que uniam as suas mãos, era a feliz prisioneira a quem tudo era imposto, a quem nada era perguntado. Aqui, era por sua própria vontade que ficava seminua, enquanto um só gesto, o mesmo que bastaria para pô-la novamente de pé, bastaria também para cobri-la. Sua promessa a prendia tanto quanto os braceletes de couro e as correntes. Mas seria apenas sua promessa? E por mais humilhada que estivesse, ou justamente porque estava humilhada, não haveria também a doçura de ter valor justamente por sua própria humilhação, pela sua docilidade em curvar-se, por sua obediência em abrir-se? Com a saída de René e Sir Stephen tendo-o acompanhado até a porta, O esperou, sozinha, sem se mexer, sentindo-se na solidão, mais exposta e na espera, mais prostituída do que tinha se sentido quando estavam com ela. A seda cinza e amarela do sofá era lisa sob a sua saia, através do náilon de suas meias sentia sob os joelhos o tapete de lã alta e, ao longo da coxa esquerda, o calor da lareira — onde Sir Stephen tinha acrescentado três achas que ardiam com muito barulho. Um relógio antigo, sobre uma cômoda, tinha um tiquetaque tão suave que só se podia perceber quando tudo se calava em volta. O escutou-o atentamente e sentiu como era absurdo neste salão civilizado e discreto ficar na postura em que estava. Através das persianas fechadas ouvia-se o roncar de Paris depois da meia-noite. Amanhã de manhã, durante o dia, reconheceria na almofada do sofá, o lugar em que tinha apoiado a cabeça? Voltaria algum dia a este salão, para ser tratada do mesmo modo? Sir Stephen estava demorando e O, que tinha esperado com tanta indiferença o desejo dos desconhecidos de Roissy, sentia a garganta apertada com a idéia de que em um minuto, em dez minutos, novamente ele poria suas mãos sobre ela. Mas não aconteceu exatamente como previra. Ouviu quando abria a porta e atravessava a sala. Ficou por um tempo de pé, de costas para o fogo, observando O; depois, numa voz muito baixa, disse-lhe para se levantar e sentar-se novamente. Surpresa e quase constrangida, obedeceu. Ele lhe trouxe delicadamente um copo de uísque e um cigarro, que ela recusou. Viu então que ele vestia um roupão, muito sóbrio, em popeline cinza — do mesmo cinza de seus cabelos. Suas mãos eram longas e secas, e as unhas planas, cortadas curtas, muito brancas. Nesse momento, Sir Stephen surpreendeu o olhar de O, que corou: eram bem estas mesmas mãos, duras e insistentes, que tinham se apoderado do seu corpo e que agora ela temia e esperava. Mas ele não se aproximava. "Gostaria que ficasse nua", disse. "Mas antes desabotoe só o casaco, sem se levantar". O desabotoou as grandes fivelas douradas e fez cair de seus ombros o agasalho negro que colocou na ponta do sofá, onde já se encontravam sua pele, suas luvas e sua bolsa. "Acaricie um pouco o bico dos seios", disse então Sir Stephen, acrescentando: "Vai precisar uma maquilagem mais escura, esta é muito clara". Perplexa, O roçou o bico dos seios com a ponta dos dedos e ao sentir que endureceram e se levantaram, escondeu-os com as palmas: "Ah! não", disse Sir Stephen; e retirou suas mãos, inclinando-a para trás, sobre o sofá; seus seios eram pesados para o busto delicado e afastaram-se levemente para as axilas. Tinha a nuca apoiada no encosto, as mãos dos lados dos quadris. Por que Sir Stephen não aproximava sua boca, por que não estendia a mão para os bicos que desejou ver levantados e que ela sentia tremerem por mais imóvel que ficasse, só com o movimento da respiração? Mas ele tinha se aproximado e sentado meio de lado no braço do sofá, não a tocava. Fumava, e um movimento de sua mão, que O nunca soube se foi ou não voluntário, fez voar um pouco de cinza quase quente entre seus seios. O teve o sentimento de que ele queria insultá-la, com seu desdém, com seu silêncio, com o d esprendimento que havia na sua atenção. No entanto, há pouco desejava-a, e mesmo agora ainda a desejava; podia perceber isso sob o tecido leve de seu roupão. Por que não a possuía nem que fosse para feri-la? O detestou-se por seu próprio desejo, e detestou Sir Stephen pelo domínio que tinha sobre si mesmo. Queria que ele a amasse, esta é a verdade: que ficasse impaciente para tocar seus lábios e penetrar seu corpo, que a destruísse se fosse necessário, mas que não pudesse, diante dela, guardar a calma e dominar seu prazer. Era-lhe indiferente, em Roissy, que aqueles que se serviam dela tivessem qualquer sentimento que fosse; eram apenas instrumentos através dos quais seu amante tinha prazer com ela, pelos quais ela se tornava o que quisesse, polida, lisa e doce como uma pedra. Todas as mãos eram as suas mãos, todas as ordens, as suas ordens. Aqui não. René tinha-a entregado a Sir Stephen, mas via-se bem que não era porque quisesse obter mais dela, nem pela alegria de entregá-la, mas para compartilhar o que mais amava, agora, com Sir Stephen, como sem dúvida, antigamente, quando eram mais jovens, tinham compartilhado uma viagem, um barco ou um cavalo. Era com relação a Sir Stephen que tinha sentido compartilhar, muito mais do que com relação a ela. O que cada um procuraria nela, seria a marca do outro, o traço de passagem do outro. Um momento antes, quando a mantinha de joelhos e seminua, apoiada nele, enquanto Sir Stephen com as duas mãos abria suas coxas, René tinha explicado a Sir Stephen por que o acesso às nádegas de O era tão fácil e por que tinha ficado tão contente por terem-na preparado dessa maneira: era porque se lembrara de que seria agradável para Sir Stephen ter, constantemente à sua disposição, o caminho que mais lhe agradava. Chegou a acrescentar que, se quisesse, deixar-lhe-ia esse caminho para seu uso exclusivo. "Ah! com muito gosto", dissera Sir Stephen, observando entretanto que apesar de tudo ainda corria o risco de rasgar O. "O lhe pertence", respondera René; e inclinando-se para ela tinha lhe beijado as mãos. Só a idéia de que René podia assim considerar a possibilidade de se privar de alguma parte sua, deixara O transtornada. Viu nisto o sinal de que seu amante importava-se mais com Sir Stephen do que com ela. E percebeu também que, embora René tantas vezes tivesse repetido que amava nela o objeto em que a tinha transformado, sua total disponibilidade e a liberdade que sentia em relação a ela — como se possui um móvel com o qual se tem mais prazer dando-o do que guardando-o para si — nunca tinha acreditado totalmente nisso. Via ainda outro sinal do que não podia ser outra coisa que uma deferência para com Sir Stephen no fato de que René, que amava tão profundamente vê-la sob os corpos ou os golpes de outros, que olhava com ternura tão constante, com um reconhecimento tão incansável sua boca abrir-se para gemer ou gritar, seus olhos fecharem-se sobre as lágrimas, tinha-a entretanto deixado, depois de assegurar-se ao expô-la, abrindo-a como se abre a boca de um cavalo, para mostrar que é bastante jovem, que Sir Stephen

achava-a suficientemente bela, ou, a rigor, suficientemente cômoda para ele, e que quisesse aceitá-la. No entanto, este comportamento, ultrajante talvez, não mudava nada no amor de O por René. Sentia-se feliz por contar para ele, o suficiente para que sentisse prazer em ultrajá-la. Mas em Sir Stephen advinhava uma vontade firme e gélida que o desejo não dobraria, e diante da qual até agora, por mais comovente e submissa que fosse, não significava absolutamente nada. Não fosse assim por que teria sentido tanto medo? O chicote no cinto dos criados de Roissy, as correntes que quase sempre carregava, tinham-lhe parecido menos assustadores do que a tranqüilidade com que Sir Stephen olhava seus seios sem tocá-los. Sabia como pareciam frágeis, assim pesados, lisos e inchados nos ombros pequenos e no busto delicado. Não conseguia parar de tremer, seria necessário parar de respirar. Esperar que essa fragilidade desarmasse Sir Stephen seria inútil, e sabia muito bem que era justamente o contrário que acontecia: sua doçura assim oferecida atraía tanto os ferimentos quanto as carícias, tanto as unhas quanto os lábios. Teve um momento de ilusão: a mão direita de Sir Stephen, que segurava o cigarro, roçou com a ponta do dedo médio o bico de um seio, que obedeceu e tornou-se ainda mais duro. Que representava para Sir Stephen apenas uma espécie de jogo, uma verificação, como se verifica a excelência e o bom funcionamento de um mecanismo, O não tinha dúvidas. Sem tirar o braço de sua poltrona, Sir Stephen disse-lhe então para tirar a roupa. Nas mãos úmidas de O os colchetes escorregavam e teve que recomeçar duas vezes a desabotoar, sob a saia, a anágua de seda preta. Quando, enfim, ficou totalmente nua, só com as sandálias de verniz e as meias de náilon pretas enroladas acima do joelho sublinhando a delicadeza de suas pernas e a brancura de suas coxas, Sir Stephen, que também se levantara, segurou-a com uma das mãos dentro de seu ventre e empurrou-a para o sofá. Fez com que ficasse de joelhos com as costas encostadas no sofá e mandou que abrisse um pouco mais as coxas para apoiar-se mais perto dos ombros do que da cintura. As mãos de O repousavam junto aos tornozelos e desse modo seu ventre ficava entreaberto, e sobre os seios, oferecidos, seu pescoço inclinava-se para trás. Não ousava olhar Sir Stephen no rosto, mas via suas mãos que desamarravam o cinto do roupão. Quando foi para cima dela, sempre ajoelhada, segurando-a pela nuca, penetrou em sua boca. Não era a carícia de seus lábios que procurava, mas o fundo de sua garganta. Penetrou-a durante muito tempo; O sentia inchar-se e endurecer nela a mordaça de carne que a sufocava e cujo choque lento e repetido arrancava-lhe lágrimas. Para melhor penetrá-la, Sir Stephen tinha acabado de se pôr de joelhos sobre o sofá, de ambos os lados do seu rosto, e por instantes suas nádegas repousavam no peito de O, que sentia queimar seu ventre, inútil e desprezado. Por mais tempo que assim tivesse se deleitado, não acabou entretanto seu prazer, mas retirou-se em silêncio, ficando de pé sem fechar o roupão. "Você é fácil, O", disse-lhe. "Ama René, mas é fácil. René percebe que você deseja todos os homens que a querem e que, levando-a para Roissy e entregando-a e outros, dá-lhe tantos álibis quanto a sua própria facilidade?". "Amo René", respondeu O. "Ama René, mas sente desejo por mim, entre outros", continuou Sir Stephen. Sim, tinha desejo por ele, mas e se René, ao saber disso, mudasse? Podia apenas calar-se e abaixar os olhos, pois seu olhar nos olhos de Sir Stephen já teria sido uma confissão. Sir Stephen inclinou-se, então, para ela e, segurando-a pelos ombros, puxou-a para o tapete. Deu por si de costas. Com as pernas levantadas e dobradas sobre o corpo. Sir Stephen, que tinha se sentado no sofá no mesmo lugar em que um momento antes estivera apoiada, segurou seu joelho direito e puxou-o para si. Como se encontrasse na frente da chaminé, a luz da lareira, bem próxima, iluminava violentamente o duplo sulco totalmente aberto do seu ventre e das suas nádegas. Sem largá-la, Sir Stephen ordenou-lhe bruscamente que se acariciasse, mas sem fechar as pernas. Perturbada, O estendeu docilmente sua mão direita sob o ventre, encontrando com os dedos, já liberada dos pêlos que a protegiam, já ardente, a aresta de carne onde se reuniam os frágeis lábios de seu ventre. Mas sua mão caiu e balbuciou: "Não posso". E, com efeito, não podia. Nunca tinha se acariciado, a não ser furtivamente no calor e na obscuridade de sua cama quando dormia sozinha, sem nunca entretanto buscar o prazer até o fim. Mas às vezes encontrava-o mais tarde em sonhos, e despertava decepcionada de que tivesse sido tão forte e tão fugaz. O olhar de Sir Stephen insistia. Não pôde suportá-lo e, repetindo "não posso", fechou os olhos. O que revia, de que não conseguira fugir, e que lhe dava a mesma vertigem de repulsa que todas as vezes em que o testemunhara, quando tinha quinze anos, era Marion, com uma perna sobre o braço da poltrona e a cabeça meio pendente sobre o outro braço, acariciando-se e gemendo na sua frente. Marion contara-lhe que um dia tinha se acariciado assim no escritório pensando estar sozinha, e que o chefe de seu serviço tinha entrado de imprevisto e a tinha surpreendido. O lembrava-se do escritório de Marion, um ambiente nu, de paredes em tom verde-pálido, que recebia a luz do dia vinda do norte, através dos vidros empoeirados. Só havia aí uma única poltrona destinada aos visitantes e que ficava na frente da mesa. "Você fugiu?", tinha-lhe perguntado O. "Não", respondera Marion, "ele me pediu para recomeçar", mas fechou a porta, fez-me tirar as calcinhas e empurrou a poltrona para perto da janela". O tinha se sentido invadida de admiração pelo que considerava ser coragem de Marion, e ao mesmo tempo de horror, recusando-se ferozmente a acariciar-se diante de Marion, e jurando que nunca, nunca se acariciaria na frente de ninguém. Marion, rindo, dissera: "Você vai ver quando seu amantes lhe pedir". René nunca tinha lhe pedido. Teria obedecido? Ah! Certamente, mas com que terror de ver surgir nos olhos de René a mesma repulsa que ela própria sentira de diante de Marion! O que era absurdo; e que fosse Sir Stephen era mais absurdo ainda. O que lhe importava a repulsa de Sir Stephen? Mas não, não podia. Pela terceira vez murmurou: "Não posso". Por mais baixo que tivesse falado, ele a escutou e, deixando-a, levantou-se, fechou seu roupão e ordenou a O que se levantasse. "É esta a sua obediência?", disse. Depois, com a mão esquerda segurou seus punhos e com a direita esbofeteou-a com toda a força. Ela cambaleou e teria caído se ele não a tivesse segurado. "Fique de joelhos e me escute", disse, "temo que René a tenha educado muito mal". "Sempre obedeço René", balbuciou. "Você confunde amor e obediência. Vai me obedecer sem me amar e sem que eu a ame". O sentiu-se então tomada da mais estranha revolta, negando em silêncio no interior de si mesma as palavras que ouvia, negando seu próprio consentimento, seu desejo, sua nudez, seu suor, suas pernas trêmulas e as olheiras de seus olhos. Debateu-se, cerrando o dentes de raiva, quando fazendo-a curvar-se, ou melhor, prosternar-se, com os cotovelos no chão e a cabeça entre os braços e levantando-a pelos quadris, Sir Stephen forçou entre suas nádegas para rasgá-la como dissera a René que o faria. Da primeira vez ela não gritou. Recomeçando então mais brutalmente, ele fez com que gritasse. E todas as vezes em que ele se retirava e voltava, portanto, todas as vezes em que decidia, ela gritava. Gritava tanto de dor como de revolta, e ele não se enganava a esse respeito. Ela também o sabia, e isso significava que de qualquer forma estava vencida e que ele estava contente por obrigá-la a gritar. Quando terminou, levantou-a e começou a preparar-se para dispensá-la, enquanto observava que o que tinha ejaculado ao sair iria tingir-se aos poucos com o sangue do ferimento que lhe tinha feito, que este ferimento a queimaria enquanto não tivesse se acostumado e que continuaria a forçar a passagem. Certamente não iria privar-se deste uso dela que René lhe tinha reservado, portanto, não deveria esperar ser poupada. Lembrou-lhe que tinha consentido em ser escrava de René e sua, mas que lhe parecia improvável que soubesse com todo o conhecimento de causa em que se tinha engajado. Quando finalmente compreendesse, seria tarde demais para escapar. (...)


RÉAGE, Pauline. História de O. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985, p. 82-91.

Um comentário:

Louise Anne disse...

Um Dos Livros mais perfeito que já lee, pena que a edição que peguei não tinha o final completo.
Desperta Fetishis internos incontrolaveis.