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sábado, 25 de abril de 2009

A moça mostrava a coxa


A moça mostrava a coxa,a moça mostrava a nádega,só não mostrava aquilo– concha, berilo, esmeralda –que se entreabre, quatrifólio,e encerrra o gozo mais lauto,aquela zona hiperbórea, misto de mel e de asfalto,porta hermética nos gonzosde zonzos sentidos presos,ara sem sangue de ofícios,a moça não me mostrava.E torturando-me, e virgemno desvairado recatoque sucedia de chofreá visão dos seios claros,qua pulcra rosa pretacomo que se enovelava,crespa, intata, inacessível,abre-que-fecha-que-foge,e a fêmea, rindo, negavao que eu tanto lhe pedia,o que devia ser dadoe mais que dado, comido.Ai, que a moça me matavatornando-me assim a vidaesperança consumidano que, sombrio, faiscava.Roçava-lhe a perna. Os dedosdescobriam-lhe segredoslentos, curvos, animais,porém o maximo arcano,o todo esquivo, noturno,a tríplice chave de urna,essa a louca sonegava,não me daria nem nada.Antes nunca me acenasse.Viver não tinha propósito,andar perdera o sentido,o tempo não desatavanem vinha a morte render-meao luzir da estrela-d'alva,que nessa hora já primeira,violento, subia o enjoode fera presa no Zôo.Como lhe sabia a pele,em seu côncavo e convexo,em seu poro, em seu douradopêlo de ventre! mas sexoera segredo de Estado.Como a carne lhe sabiaa campo frio, orvalhado,onde uma cobra despertavai traçando seu desenhonum frêmito, lado a lado!Mas que perfume teria a gruta invisa? que visgo,que estreitura, que doçume,que linha prístina, pura,me chamava, me fugia?Tudo a bela me ofertava,e que eu beijasse ou mordesse,fizesse sangue: fazia.Mas seu púbis recusava.Na noite acesa, no dia,sua coxa se cerrava.Na praia, na ventania,quando mais eu insistia,sua coxa se apertava.Na mais erma hospedariafechada por dentro a aldrava,sua coxa se selava,se encerrava, se salvava,e quem disse que eu podiafazer dela minha escrava?De tanto esperar, porfiasem vislumbre de vitória,já seu corpo se delia,já se empana sua glória,já sou diverso daqueleque por dentro se rasgava,e não sei agora ao certose minha sede mais bravaera nela que pousava.Outras fontes, outras fomes,outros flancos: vasto mundo,e o esquecimento no fundo.Talvez que a moça hoje em dia...Talvez. O certo é que nunca.E se tanto se furtaracom tais fugas e arabescose tão surda teimosia,por que hoje se abriria?Por que viria ofertar-mequando a noite já vai fria,sua nívea rosa pretanunca por mim visitada,inacessível naveta?Ou nem teria naveta...

Carlos Drummond de Andradade

2 comentários:

Igor Veloso Ribeiro disse...

Elogios vindos de você minha querida são recebidos e guardados no fundo na minha essência.
Obrigado por ser lasciva!
beijos quentes.

Miriam Martins disse...

UAU!!! Faltou-me o fôlego.
Mi